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Viveremos num mundo de fantasia? As escolas canadianas podem realmente ser equitativas e inclusivas?

A seguir transcrevo um pequeno artigo de Gordon Porter. Creio que nos pode alertar para algumas realidades sobre os pensadores e os atores da escola inclusiva.

O artigo remete para uma entrevista (em inglês) e outros três textos (em inglês).

Os comentários e, eventualmente, a tradução da entrevista por alguém disponível serão contribuições muito bem-vindas.

Agradeço a Ana Maria Cachado algumas achegas na tradução.

 


 

A liderança é o problema. Não são os alunos nem os professores. Estes lidam com relativa facilidade com os desafios da "educação inclusiva". 

 

7 de dezembro de 2011

Autor: Gordon Porter

Temas: Comunidade; Equidade; Educação inclusiva; Escolas públicas

 

Estamos muito longe de alcançar a equidade para as crianças com deficiência intelectual nas escolas canadianas. De certa forma, eu sou um participante acidental nesta discussão. Comecei a minha carreira na educação como professor de história do ensino secundário e, em seguida, diretor de escola do ensino básico. O meu interesse em encontrar estratégias para lidar com as necessidades dos alunos sem sucesso na escola levaram-me a ser um "advogado" da inclusão dos alunos com deficiência. Devo dizer que esta minha caminhada nesta área tem sido bastante interessante. Depois de trinta anos envolvido nesta questão, eu continuo a perguntar-me se sou realmente um educador prático e pragmático de uma pequena cidade de New Brunswick - com uma visão realista do que a inclusão pode fazer para garantir a equidade para todos os alunos; ou eu sou um daqueles defensores bem-intencionados, mas idealista, muitas vezes acusado de "lunático"?

Na verdade, estou mais convencido do que nunca de que a equidade e a qualidade do ensino podem ser alcançadas por um sistema de educação inclusiva.

Tendo em conta a Constituição, o fato de que grande parte do sistema de ensino canadiano não a tenha tornado uma realidade é dececionante.

Também é triste ter de referir a indiferença que muitos líderes do nosso sistema manifestam para alcançar este objetivo. Nos últimos dez anos, alguns dos nossos maiores distritos escolares canadianos estão não só a manter o número de alunos em estruturas segregadas de educação especial, como estão realmente aumentar esse número. E isto num momento em que a população total dos alunos está em declínio.

Nos últimos dez anos, alguns dos nossos maiores distritos escolares canadenses estão não só a manter o número de alunos de classes especiais ou salas de apoio, como estão realmente aumentá-lo. E isto numa altura em que a população geral dos alunos está em declínio.

Para muitos, isso é chocante, mas, na verdade, não é de estranhar. Quando se tem um sistema de ensino que incentiva os professores e os pais a pensar que os programas especiais e os professores especializados são mais importantes do que ser membro de uma classe ou turma na escola da sua comunidade junto dos seus pares, é isto o que acontece. Os professores e pais são incentivados a pensar que é melhor para as crianças com necessidades especiais obtenham a sua educação num programa especializado fora do sistema regular.

O fracasso dos nossos líderes da educação para definir e comunicar uma visão de escolaridade que possa ser, ao mesmo tempo, inclusiva e eficaz e que compense as diversas necessidades individuais dos alunos é impressionante. Os alunos com deficiência intelectual, autismo, e muitos outros, são enviados por mera rotina para programas especiais, em muitos casos, longe de seu bairro ou comunidade escolar e, logicamente longe de seus irmãos e do grupo de pares. Muitos pais relataram-me as opções que lhes foram dadas pelas respetivas autoridades escolares: permanecer na sua comunidade escolar, numa classe regular, mas sem apoio adicional, OU levar o seu filho noutra escola com um "programa especial". Estes programas especiais, é claro, tem um "professor de educação especial", que pode proporcionar uma alternativa mais adequada para o seu filho e outros com necessidades semelhantes. Para a maioria dos pais, não se trata de uma verdadeira escolha. Sem apoio adicional, ou adequação da sua colocação na escola local - como poderia ser dito em linguagem dos direitos humanos – trata-se na melhor das hipóteses de uma escolha arriscada que muitos pais têm medo de o fazer. É difícil imaginar que tenha outro significado. Esta é a realidade de muito muitos distritos escolares canadianos. É uma realidade que precisamos mudar.

Não deixa de ser irónico que exista uma outra realidade no Canadá. Muitas escolas, distritos escolares e, na verdade, várias províncias trabalham no duro para proporcionar o tipo de "inclusão" para as crianças que "os lunáticos" tem em mente. Eles disponibilizam apoio aos professores e alunos e direcionam fundos e recursos para que os resultados sejam um sucesso. Existe um número suficiente destas escolas e distritos escolares por todo o país, por isso não precisamos de nos interrogar sobre se esta é uma opção realista, viável, ou economicamente acessível. É uma abordagem que é a melhor para o interesse dos alunos - todos eles - que fazem parte desta "sala de aula inclusiva".

Em minha opinião, tudo se resume a uma questão de liderança. Existem líderes que conseguem superar o fosso entre a visão dos "sonhadores, lunáticos" e a realidade da sala de aula na escola da comunidade local.

Teremos líderes que tomam seriamente em consideração a inclusão de todos os alunos? Se for o caso, a prova estará lá na escola e na sala de aula. As lacunas que vemos nas escolas canadianas são muito grandes. Onde não tivermos esses líderes, estaremos perante alguém que não consegue reconhecer o efeito nas suas escolas de um sistema que legitima a exclusão sistemática de alguns grupos de alunos. Esses líderes menosprezam o efeito que os programas promotores de exclusão têm nas atitudes dos professores relativamente à diversidade dos alunos. O efeito é negativo!

Eles não tomam em consideração as consequências do desvio de fundos para reforçar a capacidade das escolas regulares. Eles legitimam a transferência dos alunos e dos recursos para as “margens”, através de programas de "educação especial".

A liderança é o problema. Não são os alunos nem os professores. Estes lidam com relativa facilidade com os desafios da "educação inclusiva" se os seus líderes lhes proporcionarem as condições que nós sabemos ser necessárias para o sucesso. Sabemos como fazê-lo. Os académicos publicam cada vez mais e mais artigos e livros sobre como isso pode ser feito.

Então, quais são os obstáculos a ultrapassar para conseguir o tipo de liderança que trará equidade e inclusão às nossas escolas? Eu tenho três ideias para partilhar consigo.

Em primeiro lugar, precisamos de rejeitar a ideia de que "especial" ou "perito" é melhor quando isso implique como resultado um programa de "segregação" e "exclusão". Nós temos o conhecimento e know-how para prestar apoio "especial" e temos "peritos" para apoiar professores e alunos em "salas de aula inclusivas". Na verdade, há exceções, mas um plano de aprendizagem personalizado para essas crianças pode ser posto em prática para resolver esses casos.

Em segundo lugar, os líderes precisam de coragem para enfrentar este desafio. Eles têm que gerir as mudanças necessárias nas atitudes, expectativas e capacidade para pôr as escolas e salas de aula inclusivas em funcionamento. Muitos dos professores, pais e outros dirigentes poderão compreensivelmente demonstrar algum ceticismo, uma vez que poderão não ter tido nenhum contacto ou experiência direta com uma abordagem inclusiva devidamente apoiada. Eles não poderão ser criticados por esse facto. Os líderes escolares terão de gerir proactivamente o processo de mudança para aliviar esse ceticismo. A boa notícia é que existem muitos líderes nas escolas e distritos escolares do Canadá que podem compartilhar as suas experiências positivas para fazer com que isso aconteça.

Finalmente, precisamos de líderes reconhecidos nacionalmente que desafiem os seus colegas a reconhecer a sua responsabilidade como líderes. Eles precisam contribuir de forma mais explícita na discussão sobre equidade e inclusão. Isso inclui os funcionários de alto nível do sistema de educação, investigadores e acadêmicos.

Indico, como exemplo, o meu colega Doug Willms de New Brunswick. Numa entrevista notável para o Ministério da Educação, em Ontário neste verão, ele foi interrogado sobre "...que comentários ou conselhos você daria aos diretores de escola que querem melhorar sua prática e efetuar mudanças em favor dos alunos?"

Doug Willms: "O único e mais importante conselho que eu daria é o abraçar a filosofia e o ideal de uma escola inclusiva. E isto compreende a construção de um quadro de referência para todos os funcionários da escola que explicite "esta é a filosofia de uma escola inclusiva - isto é o que podemos observar numa escola inclusiva a funcionar em pleno.

Uma escola inclusiva é aquela onde as crianças aprendem a fazer amizades positivas. Elas aprendem o que o “bullying” significa e não significa. Eles aprendem sobre a inclusão de outros.

Finalmente, temos de abordar também a inclusão no nível do sistema; não é apenas uma questão a nível da escola. Precisamos tomar medidas para garantir que temos escolas inclusivas e um sistema escolar inclusivo. Tudo se resume a recusar aceitar o "status quo" – teremos realmente de aceitar o facto de que um quarto dos estudantes canadianos estejam “desencaixados" do sistema?”

Gostaria de concluir perguntando se realmente temos de nos resignar ao fato de que muitos estudantes canadianos sejam excluídos das escolas das suas comunidades. Aqueles de nós que pensam que não continuarão a ser uns "sonhadores lunáticos”?

Para ler a entrevista completa de Doug Willms procurar em:

http://www.edu.gov.on.ca/eng/policyfunding/leadership/Summer2011.pdf


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