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Mas nós não somos a Finlândia

De: Ana Maria Bénard da Costa

É indiscutível que países com diferentes culturas, diferentes recursos financeiros e diferentes condicionantes históricas desenvolvam sistemas educativos diversos. Assim, nem sempre é viável, ou mesmo aconselhável, tentar copiar ou transplantar de um país para outro, ou mesmo de uma região para outra, as políticas, os métodos ou os recursos que visam a educação das crianças e dos jovens.

No entanto, é igualmente verdade que o ser humano possui características universais e que nos mais diversos pontos do planeta encontramos factores idênticos, capazes de fomentar o seu desenvolvimento. No que diz respeito às crianças e aos jovens, a necessidade de segurança e de pertença a adultos que os apoiam, a curiosidade que os faz procurar descobrir e experimentar, a energia que brota da auto-estima, o reforço que acompanha cada sucesso e cada passo em frente, a resposta positiva que acompanha cada momento de ajuda, verificam-se em todos os povos do planeta.

Ao encararmos esta dupla realidade – a imensa diversidade de condições de vida e a imensa semelhança dos elementos que caracterizam a nossa espécie – há que perceber aquilo em que é possível e desejável criar laços, estabelecer contactos e, em muitos casos, fomentar paralelismos e aquilo que exige adaptação, separação ou distância.

Estas considerações vêm a propósito da leitura do texto que a seguir parcialmente transcrevemos sobre a educação na Finlândia.

É indiscutível a qualidade conseguida naquele país no sector educativo. Mas, quando o apresentamos como exemplo e se apontam algumas das suas vertentes como modelos a ser considerados - colocando-as em oposição a alguns dados do nosso país - é muito comum surgir uma reacção negativa, baseada nas diferenças existentes entre estes dois países. São frequentes frases tais como: “Nós não somos a Finlândia”; “nós não temos os meios nem a cultura, nem a tradição educativa que aí se verifica”; “em Portugal temos de actuar de forma diferente”.

Existem, de facto, discrepâncias significativas que não é possível ultrapassar (sobretudo as que dependem de meios materiais) mas, ao lermos a descrição de alguns dos princípios e de algumas práticas que aí são adoptadas - nas escolas, na formação dos professores, na organização das salas de aula - e que, sem dúvida, são elementos fulcrais no sucesso alcançado, devemo-nos interrogar em que medida muitos dos meios ali utilizados não poderiam constituir para nós fontes inspiradoras e não deveríamos tentar adoptá-las mesmo, com eventuais alterações.

De facto, será que os meios de que dispomos nos impedem de evitar endeusar os exames como forma de avaliação? Será que não podemos formar os professores para o trabalho cooperativo entre os alunos? Será que para dar mais responsabilidade e autonomia aos professores são precisos mais técnicos? Será que para conhecer bem os alunos e lhes prestar a ajuda de que possam precisar, não podem ser utlizadas diferentes estratégias que não exigem meios financeiros fora do nosso alcance, como por exemplo o apoio entre professores? Será que cooperar de forma efectiva com os pais, comunidades e organizações de professores está fora do nosso alcance por falta de recursos?

Na realidade não somos a Finlândia. Mas vejamos se não seria possível procurar alguma inspiração nas linhas que se seguem, que seleccionámos a partir da página sobre a educação na Finlândia que pode ser consultada em http://www.oph.fi/english/education.

“O sucesso da educação na Finlândia baseia-se no seguinte:

Igualdade de oportunidades

O sistema educativo Finlandês oferece a todos uma igualdade de oportunidades na educação, independentemente do domicílio, sexo, situação económica ou linguística e ambiente cultural. A rede de escolas é regionalmente extensiva, e não existem serviços escolares específicos para cada sexo. A educação básica é totalmente gratuita.

O carácter global da educação

A educação básica compreende nove anos e atende todos os que têm entre 7 e 16 anos. As escolas não selecionam os seus alunos mas antes todos os alunos podem ir para as escolas da sua zona escolar. Os alunos não são encaminhados para escolas específicas.

Professores competentes

Em todos os níveis escolares, os professores têm uma qualificação elevada e trabalham de forma empenhada. É-lhes exigido o nível de Mestrado e a sua formação inclui uma formação prática. A carreira docente é muito procurada e, assim, as Universidades podem fazer uma selecção rigorosa. É dada aos professores uma total autonomia no seu trabalho.

Apoio aos alunos e educação dos alunos com necessidades especiais

O apoio individual à aprendizagem e ao bem-estar dos alunos está bem organizado e o currículo nacional contém orientações neste sentido. A educação dos alunos com necessidades especiais está integrada, tanto quanto possível, na educação regular. Existem orientadores que têm a função de apoiar os estudos dos alunos que frequentam os últimos anos da escolaridade e de os ajudar na sua orientação escolar futura.

Apoio na avaliação

A avaliação da educação e dos resultados da aprendizagem, feita pelos alunos, orienta-se por princípios de encorajamento e de apoio. A sua finalidade consiste em produzir uma informação que favoreça o desenvolvimento quer dos alunos quer das escolas. Não existem testes nacionais, ranking de escolas e sistemas de inspecção.

Importância da educação para a sociedade

A sociedade finlandesa valoriza fortemente a educação e a sua população tem um nível educativo altamente elevado, de acordo com padrões internacionais.

Existe um consenso político geral sobre a política educativa.

Um sistema flexível baseado na responsabilização

O sistema educativo é flexível e a administração baseia-se no princípio de “coordenação central – implementação local”. A coordenação realiza-se através de legislação, norma, currículo, planeamento governamental e informação.

As Autarquias são responsáveis pela administração e implementação da educação.

As escolas e os professores gozam de uma larga autonomia.

Cooperação

Todos os níveis de actividade são baseados na interacção e nas parcerias. Para o desenvolvimento da educação existe uma forte cooperação entre os vários níveis de administração, entre escolas e entre outros actores sociais e as escolas. As autoridades educativas cooperam com as organizações de professores, associações pedagógicas e organizações de lideranças escolares. Isto garante um forte apoio para o desenvolvimento.

Um conceito de aprendizagem activa, centrada nos alunos

A organização do trabalho escolar e da educação baseiam-se num conceito de aprendizagem que se centra na actividade do aluno e na sua interacção com o professor, os outros alunos e o ambiente educativo.”

Conceitos como estes não são próprios da Finlândia – são a base das políticas educativas de inúmeros países e são uma temática utilizada a cada momento em Portugal – nas Escolas de Formação, nos Congressos, nas Escolas, nas Associações de Docentes, nas variadas plataformas disponíveis na Internet.

Então porquê escrever estas linhas? A quem fizer esta pergunta aconselho o seguinte: critique, junto de um grupo de pessoas que não estejam envolvidas no sector educativo – num encontro meramente social - os exames na 4ª classe, ou a opção de currículos diferentes a partir do 5º ano, ou defenda a autonomia dos professores ou a flexibilidade curricular. Ao encontrar resistência a essas ideias, cite o exemplo da Finlândia. Aposto que a resposta de muitos será: mas nós não somos a Finlândia!

NOTA: Comentários a este pequeno artigo serão bem-vindos. Para o fazer, clique no título "Mas nós não somos a Finlândia" no início da página ao lado da figura e depois escreva na caixa de texto que ficará disponível no final da página.